Cordão do Bola Preta na Avenida Rio Branco

Carnaval do Rio e as interfaces entre as escolas de samba e os blocos de rua

O carnaval vive em constante transformação. E talvez seja esse o grande segredo da festa.
Rio, Recife/Olinda e Salvador representam os 3 maiores picos do carnaval brasileiro. Cada um, a sua maneira, mostra uma realidade dessa cadeia produtiva da festa no país.

Outras cidades estão replicando os modelos. A diversão se espalha, contagiando a principal engrenagem desse sistema: as pessoas.

Afinal, se o carnaval se mantém até hoje, é por conta delas. Nem governos, nem empresas. Foi a cultura dessas pessoas e suas associações a grande responsável por criar novas sonoridades e tendências. Suas paixões, emoções e todos os sentimentos extravasam no carnaval.

 

 

Mais uma transformação social

Há pouco tempo atrás, em 2014, co-criei um projeto chamado Papo de Ritmos. Ele consistia em entrevistar os mestres de bateria dos grupos especial e de acesso, o que nos fez percorrer quase todas as escolas de samba do Rio.

Essa experiência, misturada ao contato constante com os blocos, por conta do São Bloco, me deu algumas visões que ficaram cada vez mais claras ao longo desses últimos tempos.

De 2000 para cá, especialmente após o surgimento do Monobloco, os blocos de rua começaram a pipocar numa velocidade ímpar. A veia temática foi a que ganhou mais força. Usando uma fórmula que deu bastante certo, atraiu fãs de artistas e temas já conhecidos na música popular.

Isso trouxe gente que talvez não viesse pra rua. Até mesmo quem torcia o nariz para o carnaval em outras épocas. Nerds, roqueiros, melancólicos, hipsters e toda a sorte de classificações e grupos vieram, deixando a festa mais democrática.

 

Bloco Sargento Pimenta no Aterro do Flamengo

Bloco Sargento Pimenta no Aterro do Flamengo em 2016.

 

O samba é mulato, mas os blocos são brancos.

O samba-enredo é uma mistura entre a música africana, especialmente a que se fazia nos terreiros de candomblé, com as marchas dos quartéis, que tem origem nas organizações militares européias.

De fato, o samba-enredo é mulato.

Olhando mais de perto o universo das escolas de samba, uma das grandes dificuldades enfrentadas pelos mestres de bateria hoje é a renovação. Os novos ritmistas, antes captados nas comunidades cujas famílias frequentavam o ambiente das escolas, agora não estão tão acessíveis como no passado. Com a quantidade de distrações no mundo, como a própria internet, as escolas deixaram de ser um ponto de referência em comum.

Até temos um fenômeno conhecido como “baterias de escritório”. Ou seja, grupos de músicos e ritmistas experientes e competentes que tocam nas baterias, complementado o plantel para desfilar.

Mas, claro, isso está longe de ser uma regra. Comunidades onde as escolas têm forte identidade com o local, como Beija-Flor, Mangueira, Portela, entre outras co-irmãs, ainda conseguem manter o trabalho só com a sua própria comunidade.

Mas é preciso reconhecer que manter 300 ritmistas tocando com qualidade na Sapucaí é um trabalho que não se constrói em pouco tempo.

Bateria “Pura Cadência”, da Unidos da Tijuca. Uma das baterias nota 10 dos últimos anos.

Bateria “Pura Cadência”, da Unidos da Tijuca. Uma das baterias nota 10 dos últimos anos.

 

Por outro lado, os blocos viram uma oportunidade.

O clima competitivo e a distância entre as quadras e a população mais abastada da cidade, que fica entre a Zona Sul e Barra, fez com que os “bloquinhos” enxergassem uma demanda reprimida. Havia um tanto de pessoas que queriam, além de “pular”, também tocar no carnaval.

Através das oficinas de percussão, os blocos ensinaram o ritmo e formaram seus próprios grupos para tocar. Com um nível de exigência técnica menor que o das escolas de samba, a aceitação dos novos ritmistas foi imediata. E assim, proliferaram os diversos blocos e suas oficinas pelo Rio, transformando e democratizando a festa que antes parecia estar segregada à Sapucaí.

Mas o alto custo do carnaval — e do Rio de Janeiro — teve reflexo nos preços dessas oficinas. Muitas cobram, pelo menos, valores de 3 dígitos aos seus alunos. O que, naturalmente, afasta a população não-rica, que por questões históricas sabidas são os negros e pardos.

Em boa parte das vezes, quando se vê alguém mais “escurinho” nos blocos, pode apostar que são profissionais ou amigos criados no ritmo. Em geral, são eles que seguram o bpm. Uma prova de que, se houvesse ainda mais integração, teríamos uma troca maior e, naturalmente, mais qualidade.

Por isso, é visível que, diferente do samba-enredo mulato, os blocos são brancos. Um branco brasileiro, meio mestiço… mas branco.

 

Tendências futuras

A minha intenção aqui foi falar um pouco sobre mais essa transformação do carnaval carioca. Provavelmente, estamos chegando num patamar de consolidação dessa era. Porém, como tudo é transitório, novos momentos já estão por vir.

O que precisamos manter é a constante integração. Das matrizes de onde nasce o ritmo até os bloquinhos de bairro, todos podem os pontos para festejar e expressar a festa.
Acredito que blocos e escolas ainda têm muito o que aprender um com o outro. Só mantendo essa sinergia para continuarmos o que fazemos de melhor.

 

BÔNUS: Depoimento de Cartola

É muito possível que quando as escolas de samba surgiram com mais força, aqueles que curtiam o samba e o carnaval de antes também estranhassem os novos tempos. Pensando nisso, achei esse relato de um mestre.

Fica aqui a entrevista do Cartola sendo ele mesmo. Ouça 10 minutos a partir do minuto 39. Talvez, você que não goste de carnaval, se identifique.

 

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