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    © 2016 Matheus Graciano | Consultoria de design e marketing digital.

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Made in Barato: quem veste você?

Há alguns meses atrás, depois de um bom período sem comprar roupas, voltei às lojas. Entre shoppings, lojas de rua e virtuais, descobri que a briga está cada vez mais tensa. Cheguei ao ponto de ir à loja de uma marca apenas para experimentar e depois comprar pela internet. O motivo? Enquanto a loja física não negociava seus preços, nem com pagamento à vista, sua “loja virtual” distribuia descontos, chegando a pouco mais de 2/5 do valor, mesmo parcelando em 5 vezes. Dada a mágica, pensei: Como isso é possível?

A minha surpresa não parou por aí. Como bom consumidor, fui dar uma olhadinha nas notas fiscais. Para meu espanto, cerca de 30% do que eu paguei eram impostos. Sim, dinheiro que fica para o governo brasileiro. Me senti como os revoltosos na inconfidência mineira, onde o pobre Tiradentes perdeu a cabeça. Mal eles sabiam que se hoje nos fosse cobrado 1/5 em impostos, estaríamos comemorando.

 

The True Coast / Made in Barato – Matheus Graciano

 

Tá barato pra caramba!

E você, quer pagar quanto?

Nessa onda de “novas roupas”, parei na Riachuelo, loja de departamentos popular no Brasil. Fiquei espantado com o valor das camisas lisas, as típicas “camisetas”. Por 15 reais era possível tê-las, fossem elas brancas ou a cores. Estavam com um preço que era a metade do cobrado por uma famosa concorrente brasileira, a Hering.

Porém, a piada maior vem a seguir: criaram uma tag, escrito: PRODUTO IMPORTADO. Sim, importados são, sem dúvidas! Aliás, se você estava por aqui nos anos 90 e 00, deve se lembrar que “produtos importados” eram o máximo no Brasil. Num país altamente protecionista como o nosso, onde os produtos internos concorriam entre si, evoluindo pouco, tudo que vinha “de fora” era o que havia de melhor. Entendendo a falta de conhecimento do nosso cidadão médio, a loja resolveu apelar com esse rótulo de “produto importado”. A única diferença é que aqueles importados, pelo menos naquelas camisetas, vinham do Peru, Índia, China e Bangladesh, não da Europa ou EUA, como nosso povo ludibriado deve imaginar.

 

Como será costurar um dia inteiro para ganhar um salário miúdo por mês? Foto: The True Cost.

Desânimo laboral. Foto: The True Cost.

 

Você é atento, eu sei. Tenho certeza que já percebeu a quantidade de produtos físicos que consumimos, sendo boa parte manufaturados na Ásia. Nossa irmã, China, produz muito. É verdade. Mas ainda temos Índia, Indonésia, Bangladesh, Camboja, Vietnã que, com uma bela taxa demográfica, tem uma coisa em comum: “mão de obra ociosa abundante”. E quando se tem muitas pessoas em busca de trabalho, o valor do mesmo vai para o pé. Quando a regra é não ter regras, até a salubridade vai para o esgoto. Dessa fórmula básica, consegue-se os bons preços. Pelo menos para nós do Ocidente.

Fui conversar com amigos desse universo da moda, buscar coisas que pudessem esclarecer um pouco mais essas relações que, mesmo sabendo que tendem a ser surreais, nunca conseguimos provar com fatos totalmente. Coincidência ou não, ao ligar a Netflix, ela me fez o favor de apresentar o documentário “The True Cost”, cujo trailer é esse abaixo:

 

[vc_video link=’https://youtu.be/OaGp5_Sfbss’]

 

Com uma pesquisa feita in loco e enredo simples, a história gira em torno de algo básico: como é a vida das pessoas que produzem as roupas que a gente compra. Você faz ideia de como está a saúde das pessoas que produzem o algodão que tece a nossa roupa?

De uma ponta a outra, parece que deixamos um rastro de desgraça, bem diferente da “chiqueza” das passarelas e vitrines de moda. O realismo dos números é tão absurdo que, falando assim, pareço um fatalista. Então, dá uma olhada nessa foto abaixo e veja se há alguma montagem aqui:

 

Desabamento do prédio que reunia fábricas têxteis em Daca, a capital de Bangladesh, em abril de 2013.

Desabamento do prédio que reunia fábricas têxteis em Daca, a capital de Bangladesh, em abril de 2013.

 

Os mais de 1100 mortos confirmados nesse desabamento são vítimas de um prédio já condenado, cheio de rachaduras, que abrigavam fábricas produtoras de algumas de nossas roupas baratas. O “made in barato” da vez, neste caso, é o Made in Bangladesh. Como sempre, temos os argumentos de “mas ninguém é obrigado a trabalhar sob essas condições”. Mas… e se as alternativas forem poucas num país pobre como o seu? O que fazer?

Nesse momento, todo o meu lado liberal que aprecia profundamente o “livre comércio” foi colocado em xeque. Realmente, não acho tranquilo que as pessoas trabalhem em condições tão difíceis só para que a minha camisa valha 15 reais.

 

Senhor, estamos aguardando o colapso…

O que será que o futuro nos aguarda?

Tenho uma “teoria-prática” que levo muito a sério. Ela consiste em exercitar conscientemente 2 direitos (e poderes) básicos: VOTAR e COMPRAR. Sei que muita gente não tem a possibilidade de votar no mundo. Aliás, nós mesmos não tínhamos até pouco tempo atrás. Já comprar (ou não) é diferente. E não há nada pior para um sistema que o boicote.

Aplicativos como o “Moda Livre” tentam mapear, através de dados do Ministério do Trabalho, se as produções estão ou não saindo de mãos em situações não aceitáveis de trabalho. Tentativas corajosas num mar de escuridão quanto a esse assunto.

Longe de ser uma ode aos produtos têxteis nacionais que, infelizmente, ainda possuem casos de abuso da mão de obra de nossos irmãos latinos e brasileiros. Mas precisamos compreender a origem do que compramos, sabendo que em alguns países, as péssimas condições não são exceções. Mais do que saber “quanto” dinheiro sai do nosso bolso, está na hora de questionarmos “para onde” ele vai.