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Nem preto, nem branco: a miscigenação que assusta os extremos

Estou há muito tempo para publicar essa foto. Ela foi feita no meu batizado, antes de fazer um mês de nascido. Resume bem o que sempre expus às pessoas sobre minha cor, origem e modo de ver a vida, especialmente nos últimos tempos, onde a cobrança para assumir uma identidade pré-estabelecida é tão forte.

Mas antes de tudo, olhe bem a foto.

Eu com menos de 1 mês em meu batizado. Pai preto, mãe branca, filho misturado. Data: 1º/12/1985.

As diferenças entre os povos nunca foram um assunto novo. Pelo contrário. O que acontece no Brasil demorou, mas chegou. Agora, aqueles que sempre sofreram discriminação, finalmente, ganharam um pouco mais de dinheiro e acesso à informação, criando esse novo ‘lugar de fala’.

Consequentemente, as questões raciais e suas desigualdades entraram na pauta (e nas casas) de muita gente.

E assustou.

Assustou quem nunca se achou racista chamando o amigo de macaco, esfregando o dedinho no braço para comentar uma situação ou achando que chamar todos de negão/negona ou neguinho/a é normal, cultural. Sendo que, quando a brincadeira se inverte para um amigo branco de olhos claros ela… inexiste. Não há adjetivos. E sem ter para onde correr, virou tudo um problema do “politicamente correto”.

Normal. Mudanças assustam.

Do outro lado (se é que é para ter lado) muita coisa também aconteceu. Muita gente se assustou por nunca ter se reconhecido como pardo, negro, sem nunca, ao menos, ter parado para pensar porque toda essa divisão financeira e social aconteceu ao longo dos últimos séculos. Outros se assustaram como a comunicação e a propaganda são feitos por e para apenas uma parcela da população, tomando consciência da disparidade da vida.

Normal. Quem muda se assusta.

Mas existe algo ainda mais medonho. Algo que conseguiu assustar colonizadores, nazistas e fundamentalistas. É a tal da miscigenação. Os mesclados. A mistura!

Aliás, há teorias dos séculos passados que, vejam só, reconheciam na mistura dos brancos com negros e índios um problema. Ela produziria resultados ruins, com seres humanos imprevisíveis e uma série de defeitos, algo que precisava ser combatido.

Realmente! Essa mistura simplesmente quebra o sistema… até hoje.

O ataque à miscigenação vem nos detalhes

Nos últimos 32 anos (minha idade atual), tive uma série de privilégios que me ajudaram a ser quem sou. Tenho plena consciência disso. Ainda sim, no supermercado das classificações sociais, eu seria um “negro com privilégios”. Ou talvez, um fruto do colorismo, termo que explica o quanto o tom da pele te faz mais aceito ou não.

Sabendo que tudo isso é real, só uma questão continuo a indagar: por que a teoria difundida pelos norte-americanos do “basta uma gota de sangue negro para sê-lo” é a certa? Sério, isso não é muito reducionista para você?

Novamente, olhe para a foto.

São 50% para cada lado. Por que então brincar de sistema binário, com 0 ou 1? Nem a natureza fez isso. As plantas, animais, os seres vivos em peso são evoluções feitas com combinações genéticas que geraram outros indivíduos. A diversidade, aliás, sempre pautou a natureza. Então, por que os humanos, depois de tantas misturas, ainda insistem em dividir os frutos da miscigenação dessa forma? Ou é branco ou é negro?

“Mas é seu filho mesmo?” Frase bastante ouvida pela minha mãe.

Divisões criam vantagens, mas precisamos de pontes

Imagine como fica difícil afirmar uma superioridade racial se há mestiços com potencial melhor que o “raça pura”.

E acredite… eu sei bem o que é isso. Tudo bem que minha autoestima sempre foi, digamos… um pouquinho acima do normal. Ainda sim, sempre percebi que quando não havia mais o que falar de alguma qualidade minha, lá vinha a diferenciação. Sempre recebia (e, se bobear, ainda recebo) um adjetivo “preto/negro” antecedendo qualquer qualidade. Coisa que, se fosse “clarinho”, nem seria citado.
E a minha metade branca, pergunto? Tanto faz. Você acha mesmo que depois de tanto trabalharem para criar uma vantagem de brancos sobre pretos, alguém vai permitir que você hackeie o sistema?

Ao contrário de muitas pessoas que, infelizmente, sofreram e tiveram problemas durante toda a sua vida por conta de sua cor, sempre gostei de ser misturado. Por algum motivo, via nisso uma vantagem grande para ser uma ponte num mundo onde fazemos de tudo para nos segregar.

Além de uma consciência sobre a importância dos africanos no Brasil, gostaria também que a relevância da mistura, da miscigenação, fosse celebrada ainda mais. E isso vale até mesmo para os que se acham brancos. Afinal, tem muitos de nós, brasileiros, que se pisassem num país europeu seriam facilmente deixados de lado como… mestiços.

Sei que muitos ainda vão contestar bastante, dizendo que tudo que penso é uma negação à identidade negra, entre outras afirmações que já sei que ouvirei até minha partida. Ainda sim, me sinto feliz em ter a celebração de toda essa carga genética de brancos e pretos em meu sangue. E mesmo com todas as dificuldades, agradeço bastante por ter nascido assim. 😉