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Música pela música: será que a gente pode ir direto ao que interessa?

Comentaristas de música e a dispersão do assunto principal

Quando a revista Rolling Stone chegou tardiamente ao Brasil, em 2006, o mundo já era da web. Há tempos que minha fonte de músicas era o Kazaa, blogs com links e trocas de arquivos. Na faculdade, antes da “nuvem” se popularizar, o que havia era uma pasta pública com um acervo absurdo de álbuns que eram copiados diariamente para os iPods e Mp3. Quando comprei a revista na banca, no período dos últimos suspiros dos impressos do Brasil, aquela começou a ser mais uma rica fonte de novos álbuns para se ouvir, especialmente quando se tem por volta dos 20 anos.

Lembro da imagem do Back to Black da Amy Whinehouse sendo apresentado com suas 4 (de 5) estrelas. Também foi ali que conheci a Esperanza Spalding, duas das artistas que ainda ouço de uma ponta à outra por um simples fato: a música. Ritmo, melodia e harmonia. Até mesmo os álbuns de rap, como o feito pelo Jay Z e Kanye West, eu apreciava a música. Os beats com os baixo importavam. Ali, mesmo diante de todo conteúdo das letras, era sempre ela a estrela principal, a música.

Os comentários casuais

Há alguns dias atrás, “caí” num desses posts de álbuns do ano. Uma pauta legal, principalmente para elencar e elevar o nome dos artistas que produziram coisa boa no período. Entretanto, na hora de ouvir os porquês da qualidade dos álbuns, a música era o último motivo ou nem era citada. Dentre uma dezena de analistas, talvez só 2 tenham falado de música. O restante das pessoas justificava a qualidade pelo conteúdo das letras, pela importância do apoio às causas afirmativas, especialmente aquelas voltadas aos movimentos feministas, da causa negra, lgbt, tudo. Menos música.

Antes que um problematizador profissional arme seus dedinhos para vociferar algo, que fique claro que não há mal nenhum em compor sobre esses temas. Eu mesmo, quando moleque, ficava muito incomodado ao ouvir as letras que só falavam de amor. Dores de corno, de cotovelo, abandonos, um saco. Não por acaso, quando chegou Mamonas, Gabriel O Pensador, e até mesmo É o Tchan, não faltou mercado.

A essas análises que falam de música e esquecem da música (bem redundante), atribuo duas coisas que todo mundo já sabe. A primeira é o caça-clique. Está na moda falar com esse viés, especialmente entre o público 16–29, que se engaja mais nas questões. Ok. Ter audiência é o trabalho da mídia, é legítimo. Porém, outra me deixa mais preocupado: os músicos amadores, os estudiosos e os habilidosos estão sumindo ou se entrincheirando. E aqui fica um recado: se você não sabe minimamente reconhecer boas harmonias, é bom ligar o alerta.

O consumo de música mudou… e blá!

Sei que para boa parte das pessoas mais novas, a música ficou extremamente visual, daí a popularidade dos clipes e tal. Enquanto a isso, tudo bem. É até bom para o mercado que seja assim. Os clipes vendem produtos, views, shows, nutrindo o sistema para que outros artistas surjam. É do jogo.

Estamos numa era onde as letras voltaram a ganhar mais relevância, especialmente após o rap e o funk terem se consolidado de vez no mainstream. A música volta a ser literatura, um espaço para declamações. Agora então, depois do prêmio Nobel de Literatura ter agraciado o Bob Dylan, a importância aumentou. Mas por outro lado, será que não estamos tendo uma deficiência de analisar a música por completa? Porque “Like a Rolling Stone”, “Hurricane” e “Blowing In The Wind” são, acima de tudo, bem sonoras, independente do idioma que ele cantar (e a gente não entender).

Em geral, quem pouco conhece de música na prática, costuma se apegar aos clássicos e consagrados para falar que “depois daquilo nada de melhor fizeram”, até para ficarem bem com quem entende e continuar seu caminho sem serem incomodados. Sempre foi assim, há anos! Hoje, o que vemos de mais interessante são os sites especializados em determinados estilos. Um refúgio que algumas vezes acaba caindo nesse mesmo clichê dos caça-cliques.

Há alguns meses atrás, encontrei no YouTube o canal do “Márcio Guerra”, um professor de canto brasileiro que fala sobre música, olhando a música (perdão pela redundância novamente). E nada mais. Deu um alívio pontual, mas não total. Ele faz ótimas análises vocais, mas não seria ali que nós encontraríamos outras referências de coisas novas a ouvir, como rolava na Rolling Stone, Bizz, entre outras, por exemplo.

Um futuro segregador

Minha preocupação com isso é que aconteça uma segregação futura ainda maior na cultura musical. Isso acontece com todas as artes, mas na música, a subjetividade é muito curta. Você pode pegar pintores, dançarinos, cineastas, criar uma boa história e chamar de arte, eles tendo ou não talento. Mas na música, isso não tem muita vez. Sem as credenciais necessárias, você continua sendo mais um falador, ídolo pop com data de validade e… acaba aí.
O caso dos artistas é um exemplo claro disso. Por que será que os jovens mais pobres conseguem espaço maior no funk e rap, enquanto as classes médias e rica, mesmo também indo até lá, tem maior alcance de atuação, inclusive com músicas que tem guitarras, pianos, contrabaixos, trompetes, como o rock e as músicas ‘funkeadas’?

É flagrante que o (não) ensino de música na infância e adolescência vai criando esses fossos de conhecimento.

O que acontece, na maioria dos casos artísticos, é que eles se unem aos produtores musicais para, então, “agregar valor à sua música”. Um bom exemplo recente é a música “For Free”, do Kendrick Lamar. Independente da qualidade do artista e do sentimento que o fez construir aquele cenário diverso, harmonia e ritmo bebem no mesmo lugar que o pop bebeu nas décadas anteriores. Afinal, como disse o historiador Eric Hobsbawm no livro História Social do Jazz, quando a música pop quer se renovar, ela vai até o jazz para buscar as novas (velhas) diretrizes.

A música é uma plataforma excelente. Mas para durar, ela precisa ser completa

Observar e comentar álbuns e artistas apenas pelo viés temático é segregá-lo à uma prateleira. Hoje, você pode achar “superrrr top” que ele seja a sua voz em determinada pauta. Mas amanhã, quando o que se diz não tiver mais sentido para o seu momento, ela será relegada, deixada de lado. Talvez por isso que as músicas de amor atravessam gerações…

Dar valor à construção da música e ao seu perfeito casamento com as letras é dar uma oportunidade a longevidade das canções. Elas podem representar a trilha sonora de um momento, ser a plataforma de ideias, o pano de fundo de um movimento, até mesmo objeto literário, mas não apenas isso.

Ninguém é mais inteligente musicalmente só porque analisou e entendeu o contexto das letras…se chegamos à segunda década do século XXI sem observar essa integração, sem valorizar a construção completa, vamos cair no mesmo equívoco que muitos passaram. E pior: datando a canção, reduzindo o alcance dela, inclusive temporalmente.

Você pode achar que está tudo bem. Mas precisamos ter um olhar mais afiado. Só se exige mais quando se tem parâmetros. Estudemos, hoje e sempre. Talvez eu seja mais um reclamão, mas nunca saudosista. Afinal, o passado é o que menos interessa, a não ser que seja para construir um futuro melhor.